No cenário econômico brasileiro, o debate sobre o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) ressurge com força, trazendo à tona questões profundas de justiça social e eficiência fiscal.
Previsto na Constituição de 1988, este imposto nunca saiu do papel, mas sua discussão revela divergências fundamentais sobre como combater a desigualdade.
Em 2026, com projeções otimistas e críticas ferrenhas, entender os mitos e verdades do IGF é essencial para cidadãos e formuladores de políticas.
Contexto Histórico e Constitucional do IGF
O IGF está inscrito no artigo 153, VII da Constituição Federal, mas sua implementação permanece no limbo legislativo.
Em novembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a omissão do Congresso, sem impor prazos, reafirmando que a decisão é política.
Isso coloca o IGF no centro de promessas eleitorais, muitas vezes visto como uma solução mágica, mas a realidade é mais complexa.
O imposto simboliza a luta contra a concentração de riqueza, um tema urgente no Brasil, um dos países mais desiguais do mundo.
Estimativas de Arrecadação Potencial
As projeções de arrecadação do IGF variam drasticamente, refletindo diferentes metodologias e visões políticas.
Diversas fontes oferecem números que vão de bilhões a trilhões, destacando o potencial impacto financeiro.
- R$ 100,5 bilhões: Estimativa da Unafisco Nacional, representando um dos maiores privilégios tributários não taxados.
- R$ 260 bilhões: Projeção da Tax Justice Network, baseada no modelo espanhol com alíquotas progressivas.
- R$ 40 bilhões: Cálculo mais conservador, focado em patrimônios entre R$ 2 milhões e R$ 50 milhões.
Comparado a outros gastos públicos, como o orçamento do Bolsa Família, essas cifras revelam prioridades conflitantes.
A renúncia fiscal aos mais ricos atinge valores astronômicos, quase quatro vezes o orçamento de programas sociais essenciais.
Medidas Recentes e Alternativas Implementadas
Em 2026, o Brasil aprovou reformas tributárias significativas, oferecendo alternativas ao IGF.
A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade mudanças que isentam rendas baixas e taxam os mais ricos.
- Isenção de IR para rendas até R$ 5 mil mensais, aliviando a carga sobre trabalhadores.
- Imposto Mínimo de 10% sobre rendas superiores a R$ 600 mil anuais, garantindo uma contribuição justa.
- Taxação de 10% na fonte para dividendos acima de R$ 50 mil mensais, encerrando uma era de isenção.
Essas medidas buscam equilibrar a arrecadação sem depender exclusivamente do IGF, mostrando um caminho prático.
Além disso, mecanismos como a tributação de offshores e o Pilar 2 da OCDE reforçam a luta global contra a evasão fiscal.
Mitos e Verdades sobre o IGF
O debate em torno do IGF é permeado por mitos que precisam ser desconstruídos e verdades que devem ser enfrentadas.
Argumentos pró-IGF destacam seu papel na redução da desigualdade e no fomento à inovação.
- Mito: O IGF prejudica o crescimento econômico. Estudos mostram que taxação progressiva pode estimular a competição e dissolver monopólios.
- Mito: A fuga de capitais é inevitável. No Brasil, não há evidências claras, e soluções internacionais como o Pilar 2 são mais eficazes.
Por outro lado, críticas apontam riscos reais que não podem ser ignorados.
- Verdade: Pode haver fuga de capitais para paraísos fiscais, como visto na França nas décadas de 1980.
- Verdade: Em outros países, o IGF mostrou-se ineficaz, exigindo abordagens complementares.
Uma análise equilibrada requer considerar ambos os lados, evitando polarizações.
Impactos Econômicos e Sociais Potenciais
A implementação do IGF traria consequências profundas para a economia e a sociedade brasileira.
Impactos positivos incluem a arrecadação de recursos para áreas críticas como saúde e educação.
- Redução da desigualdade, redistribuindo riqueza em um país com extrema concentração.
- Desoneração de trabalhadores e pequenas empresas, fomentando a formalização e o empreendedorismo.
No entanto, há impactos negativos que merecem atenção.
- Risco de afetar o consumo das elites, com possíveis efeitos em setores de luxo.
- Otimização patrimonial por empresários, buscando brechas legais para evitar a taxação.
- Percepção de bitributação, especialmente para profissionais liberais e herdeiros.
O Brasil possui cerca de 16 mil contribuintes com rendas extremamente altas, destacando a urgência de uma reforma tributária justa.
Experiências Internacionais
Olhar para outros países oferece lições valiosas sobre a taxação de grandes fortunas.
Experiências variadas mostram que não há uma fórmula única, mas sim adaptações necessárias.
- França: Nos anos 1980, implementou um IGF que levou à fuga de capitais para a Bélgica, um alerta sobre a mobilidade do capital.
- Espanha: Serve de modelo para estudos otimistas, com alíquotas progressivas que inspiraram projeções brasileiras.
- Suíça: Rejeita consistentemente o IGF, privilegiando outros mecanismos de taxação.
- Global: O Pilar 2 da OCDE, com tributação mínima de 15% para multinacionais, é visto como mais eficaz que o IGF isolado.
Essas experiências reforçam a necessidade de um desenho cuidadoso, considerando contextos locais e globais.
Conclusão Analítica
O IGF não é uma panaceia, mas sim um instrumento potencial em um arsenal maior de justiça fiscal.
Seu debate revela tensões entre equidade e eficiência, exigindo soluções criativas e baseadas em evidências.
As reformas recentes de 2026 mostram que é possível avançar sem depender exclusivamente do IGF, combinando medidas pragmáticas.
Para o cidadão comum, entender esses mitos e verdades é um passo para participar ativamente da discussão democrática.
O futuro do IGF dependerá de escolhas políticas que balancem a redução da desigualdade com a manutenção de um ambiente econômico saudável.
Em um mundo cada vez mais interconectado, a taxação justa dos super-ricos é um desafio global que o Brasil não pode ignorar.
Referências
- https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/04/quanto-o-governo-deixa-de-arrecadar-com-beneficios-concedidos-aos-mais-ricos.ghtml
- https://sevilha.com.br/imposto-sobre-grandes-fortunas/
- https://www.reformatributaria.com/congresso/camara-aprova-isencao-do-ir-ate-r-5-000-e-imposto-minimo-de-10-a-grandes-fortunas/
- https://consumidormoderno.com.br/imposto-sobre-grandes-fortunas/
- https://neofeed.com.br/wealth-management/o-xadrez-dos-dividendos-tributacao-vira-de-cabeca-para-baixo-empresas-e-donos-de-grandes-fortunas/
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/com-imposto-sobre-super-ricos-brasil-arrecadaria-r-260-bi-por-ano-diz-estudo/
- https://veja.abril.com.br/politica/imposto-sobre-grandes-fortunas-parece-justo-mas-ja-se-mostrou-ineficiente-em-outros-paises/
- https://www.brasildefato.com.br/2023/09/04/imposto-sobre-grandes-fortunas-qual-o-possivel-impacto-da-tributacao-no-pais/
- https://blog.itau.com.br/privateinsights/receita-regras-ibs-cbs-troca-internacional-imoveis-suica-herancas-08-12-25
- https://cognitiojuris.com.br/a-regulamentacao-do-imposto-sobre-grandes-fortunas-no-brasil-como-tributo-de-carater-provisorio-emergencial-ou-extraordinario/
- https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/17990







